As horas parecem passar tão rapidamente que, sequer, conseguimos concluir nossos feitos em tempo estabelecido. Já houve épocas em que a pressa não era razão de tanto mal à humanidade. Seria o homem mais sensato? Teria este algum controle sobre o tempo? Seriam mais lentas as horas, propiciando a diligência humana? Obviamente não. O homem é que perdeu o controle sobre si e sobre a realização dos seus feitos. Seus interesses, seus projetos, suas relações com o mundo, tudo mudou; ganhou tom acelerado.
O tempo urge naturalmente. E, no afã de acompanhá-lo, o homem se apressa. Cria expectativas; idealiza um amanhã incerto e perde a presença do hoje, negligenciando experiências valiosas. Sob o comando da vaidade e do egoísmo, enclausura a sensatez e corre em vão. Ao perceber que não vence o tempo, frustra-se, perturba-se e resvala. Grande parte dos seus intentos e desígnios que, antes, estavam, aparentemente, sob absoluto controle, escapam e desvanecem. Quanto tempo perdido no tempo decorrido!
Qual de nós, seres tão frágeis, diante do poder do tempo e da sua indiferença aos nossos interesses e feitos, está livre dos desencantos? Certamente cada um de nós provará o sabor da frustração que o tempo, quer queiramos ou não, nos trará como recompensa pelas nossas negligências. E isto com relação aos mais simples e significativos feitos como ler um livro, ouvir um desabafo, dispensar um sorriso, aprender com as experiências de alguém, arrepender-se, perdoar, parar para notar a importância do outro, submeter-se a autoridade daquele que, às vezes, julgamos incapaz sem antes descobrirmos suas habilidades. Enfim, quão somos negligentes! O não-ter-tempo será sempre a justificativa mais plausível para ocultar o descontrole de nós.
Contra o tempo nada podemos fazer. Apesar de ele estar para nós, sua passagem independe da nossa vontade. Lamentavelmente, ainda não aprendemos a fazer bom uso deste bem tão precioso. Quanto dele desperdiçamos com realizações vãs! E ele, ironicamente urge. E, quando, no desespero da derrota, tentamos agarrá-lo, na esperança de recuperar um feito, ele passa e desfaz nossos sonhos...
O tempo, porém, pode ser-nos grande aliado numa tarefa especial. Para esta, ele parece se unir a nós e nos oferece trégua suficiente: trégua para realizar a tarefa de amar... Certos disso nasce-nos a esperança do recomeço...