Escola, laboratório da cidadania
Há muito se discute a escola como espaço destinado a contribuir grandemente com o processo de construção da cidadania. O incômodo se manifesta quando se esbarra na impossibilidade de se visualizar com clareza esta função da escola. A ditadura já passou. Ou não? Um presidente, pela força do povo, caiu; um representante da classe operária subiu à rampa do planalto por duas vezes; uma mulher conquistou a gestão do país. Isto é prova de que a consciência explodiu. Por que então se insistir em sufocar, com práticas e discursos tão adversos, o processo democrático que, através de conquistas, vem sempre buscando espaço para a sua consolidação? Por que se perder tanto tempo com medo dos alinhavos de quem ainda insiste em alcançar benefícios próprios, rumando por vias tão penumbradas e esquecendo-se do clarão reivindicado por tantos? Por que tantos discursos vazios e desapreço por aqueles que, como soldados, participam diretamente da batalha, no cotidiano escolar, a saber o professor?
A escola é espaço de labor, ela acolhe vidas e, a partir daí, envolve, propõe, motiva, avalia, constrói, reconstrói. E o material não sai pronto e acabado; nem poderia. Sai propenso aos retoques, à refeitura, porque o material é humano. O processo pelo qual passa é especial, num laboratório com características tão singulares: a escola cuja tarefa está longe da perfeição. No entanto para quem lida com valores tão diversos, plantando, corajosamente, sementes em terrenos, muitas vezes tão áridos, na esperança de contemplar o debulhar dos frutos em meio a tantas adversidades, a perfeição é um sonho possível, uma vez que surge da incessante busca do homem-inteiro, do cidadão. E, neste rumo, a escola persiste como um espaço de concentração de homens e mulheres valorosos.
Os peripatéticos modernos estão em todos os lugares, todavia sem a força produzida pelo poder da concentração de consciências e sensibilidades, face a face, no enlevo do cotidiano. Daí nasce o cidadão, do processo que converge na descoberta, no estalo da consciência que anuncia: “Tenho voz, sou capaz, posso dizer sim, também posso dizer não... sou importante, as minhas trevas podem converter-se em luz”. Tal cidadão percebe-se, pois, num espaço transformador, pelo menos é assim que se deseja a escola: um espaço de discussão, de elaboração, de (re) construção, de tomada de iniciativa, de ampliação da visão, de pontapé de liberdade.
Não há mais tempo a perder com intrigas de quem vê a escola como ambiente propício à instalação de ideais tão particulares e pequenos os quais induzem à deformação de consciências. É hora de contemplar intensamente a escola como laboratório da cidadania onde a visão deve ser mais ampliada, o alvo visualizado com maior objetividade; um espaço em que a essência domina a aparência o que resulta em transparência. Um lugar de ação mais concreta, em que não se perde tempo com discussões vãs e desgastantes que não conduzem a horizontes reais.
A escola possui interesse maior: acolher um grupo de sedentos de liberdade. É a partir dos interesses desse grupo que se deve elaborar sonhos. O que sobra, como aspirações próprias, manifestação de sentimentos mesquinhos, por exemplo, deve ser tomado como ingrediente que incrementa o processo e, por meio deste, deve ser convertido em alvo positivo.
No laboratório da cidadania, a saber, a escola, não se vem buscar conhecimento, apenas. Vem-se em busca de liberdade a qual deve ser conquistada paulatinamente através de oportunidades de participação em situações – das mais simples às mais ousadas, patrocinadas pela sabedoria de quem se dispõe aprender a aprender. Liberdade experimentada através do poder de expressão, da capacidade de soltura das amarras tão opressoras. Aquilo que, geralmente, concebemos como indisciplina, por exemplo, quem pode duvidar se não é um ensaio para a liberdade?
Liberdade e cidadania são faces da mesma moeda, necessidades que devem ser construídas nesse laboratório. O resultado são as surpresas, constantemente manifestadas, as quais devem sempre ser relevadas com intuito de ganharem forma nova para revestir o inquieto cidadão em permanente construção.
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